Tecnologia · Carreira

A programação está voltando à sua essência: lógica

Eu comecei a programar no começo dos anos 2000.

Na época, muito antes de IA generativa, Copilot ou ChatGPT, a matéria que mais me fascinava no curso técnico não era linguagem, framework ou interface gráfica.

Era algoritmos.

E olhando hoje para o que está acontecendo na indústria de software, talvez isso faça mais sentido do que nunca.

O mercado confundiu programação com ferramenta

Durante muitos anos, o mercado confundiu programação com domínio de ferramenta.

Surgiam frameworks, stacks e linguagens novas o tempo todo:

Flash, jQuery, Backbone, AngularJS, React, Vue, Angular, Svelte...

Cada geração parecia decretar a morte da anterior.

Eu lembro perfeitamente quando conheci o data binding no AngularJS. Foi amor à primeira vista. Aquilo parecia mágico. Depois de anos manipulando DOM manualmente, ver interface e estado sincronizando automaticamente parecia o futuro.

E era.

Mas o AngularJS ficou para trás. O Flash desapareceu. Vários frameworks que pareciam definitivos hoje são obsoletos.

O Angular moderno sucedeu o AngularJS.

E, ironicamente, em muitos aspectos conceituais, o Vue acabou herdando uma simplicidade e fluidez que lembravam muito mais a experiência original do AngularJS do que o próprio Angular atual.

Isso não significa que essas tecnologias foram inúteis. Muito pelo contrário. Cada uma delas representou uma nova camada de abstração.

E talvez esse seja o ponto mais importante da história da computação:

a abstração sempre sobe.

Antes era assembly. Depois linguagens de mais alto nível. Depois frameworks. Depois low-code. Agora IA generativa.

A cada década, programar exige menos esforço operacional e mais capacidade de raciocínio.

Os programadores não acabaram

E é exatamente por isso que eu não acredito no discurso simplista de que "os programadores acabaram".

O que está acabando não é a engenharia. É a necessidade de escrever tudo manualmente.

Existe uma diferença enorme entre:

  • saber digitar código
  • e saber construir sistemas

A IA já consegue escrever funções, componentes, APIs e até aplicações inteiras.

Mas ela ainda depende de algo muito humano:

  • contexto
  • direção
  • decomposição
  • modelagem
  • arquitetura
  • validação
  • pensamento sistêmico

A IA acelera a execução.

Mas alguém ainda precisa entender o problema.

Os fundamentos voltam a importar

E é aqui que os fundamentos voltam a ganhar importância.

Quem aprendeu lógica, algoritmos e estrutura de pensamento computacional tem uma vantagem enorme nesse novo cenário.

Porque um bom programador nunca foi definido pela linguagem que usa. Um bom programador consegue:

  • ler código em praticamente qualquer linguagem
  • entender fluxos
  • identificar padrões
  • modelar regras de negócio
  • decompor problemas complexos
  • conectar sistemas
  • perceber gargalos
  • questionar decisões ruins

Talvez estejamos entrando em uma era onde a programação volta, finalmente, para sua essência.

Menos sintaxe. Mais raciocínio.

Menos esforço mecânico. Mais arquitetura.

Menos "quem escreve mais código". Mais "quem consegue pensar melhor sistemas".

E, honestamente, isso pode democratizar o desenvolvimento de software de uma forma inédita. Hoje, alguém sem formação técnica profunda consegue criar produtos reais usando IA como amplificador. Isso abre portas enormes.

Mas existe um detalhe importante:

ter acesso à ferramenta não elimina a importância do pensamento estruturado.

Frameworks mudam. Paradigmas mudam. Ferramentas ficam obsoletas.
Mas lógica continua lógica.

Alex Ferreira
Alex Ferreira

Fundador, Smartify Solutions

Vinte anos desenvolvendo software. Apaixonado por sistemas que funcionam de verdade.