Operações · Tecnologia

Por que a próxima edição repete os erros da anterior

Roteiros de operação de um evento, anotados à mão, esquecidos sobre um case no palco vazio depois do show

No fim de todo evento acontece a mesma conversa. A equipe se reúne, exausta e aliviada, e alguém diz alguma versão de "ano que vem a gente não comete esse erro de novo". Todo mundo concorda. Anota mentalmente. Jura que dessa vez vai ser diferente.

E no ano seguinte o mesmo erro acontece.

Não porque as pessoas são desatentas, nem porque não se importam. As mesmas pessoas que juraram são competentes e dedicadas. O erro volta por um motivo bem menos óbvio, e é sobre ele que eu quero falar.

"Mas eu aprendo com os meus erros"

Se você opera eventos, sua primeira reação ao título deste artigo provavelmente foi discordar. Você aprende, sim. Lembra do fornecedor que falhou. Lembra da área que ficou apertada. Carrega essas cicatrizes de uma edição pra outra e toma decisões melhores por causa delas.

Eu não duvido disso. O problema nunca foi aprender.

O problema é onde esse aprendizado fica guardado.

Ele fica na sua cabeça. Fica na memória de quem estava lá. Fica num áudio de WhatsApp que ninguém vai procurar de novo. Fica, no melhor dos casos, num relatório de pós-evento que foi aberto uma vez, na semana seguinte, e nunca mais.

E aí chega a hora de planejar a próxima edição. Você abre o planejamento. E o planejamento nasce de um modelo em branco, ou de uma cópia do ano passado sem as anotações do que deu errado. O aprendizado está num lugar. O plano nasce em outro. Os dois nunca se encontram.

A lição e o plano moram em lugares diferentes

Essa é a frase que resume o artigo inteiro.

A lição e o plano moram em lugares diferentes.

E é por isso que a lição não muda o plano.

Pensa no portão que abriu 18h40 quando o plano dizia 18h. Digamos que dessa vez alguém tenha percebido o motivo: o credenciamento da equipe travou porque as pulseiras chegaram atrasadas. Uma lição real, concreta, valiosa.

Onde essa lição vai parar? Num comentário na reunião de encerramento. Talvez numa linha de um relatório.

E onde ela precisaria estar? No plano da próxima edição, exatamente na tarefa "abertura de portão", colada nela, dizendo "ano passado atrasou 40 minutos porque as pulseiras da equipe chegaram em cima da hora, então esse ano o credenciamento fecha três dias antes". Não na memória de alguém. Não num relatório esquecido. Dentro do plano, no ponto exato onde a decisão vai ser tomada de novo.

Se a lição não está lá, ela não existe pra quem está planejando. A pessoa vai olhar "abertura de portão: 18h" e vai planejar 18h, com a mesma inocência do ano anterior, porque nada no plano conta a ela o que aconteceu da última vez.

Uma lição que não muda o próximo plano não é uma lição. É uma história que você conta.

O que ninguém tinha previsto

Tem um caso ainda mais claro, e é o meu preferido, porque expõe o problema inteiro.

Toda edição tem aquilo que ninguém planejou. A fila que se formou num lugar que não era pra ter fila. O ponto de energia que faltou numa área que ninguém achou que precisaria. A ocorrência que não estava em plano nenhum porque ninguém imaginou que ela pudesse acontecer.

Da primeira vez, tudo bem, ninguém tem bola de cristal. O problema é quando acontece de novo no ano seguinte, e de novo pega todo mundo de surpresa. Um imprevisto acontece. Dois imprevistos iguais revelam que o primeiro nunca virou aprendizado.

Uma operação que aprende de verdade é uma operação onde a surpresa deste ano vira item de planejamento do ano que vem. O que foi imprevisto uma vez está previsto na próxima. E o número de coisas que conseguem te surpreender vai diminuindo a cada edição, em vez de ser sempre o mesmo.

É isso que "nascer melhor" quer dizer

No artigo anterior eu disse que o Pulso existe pra que cada edição nasça melhor que a anterior. Reli aquilo depois de publicar e achei que soou como slogan. Então deixa eu dizer de forma concreta o que essa frase significa, sem poesia.

Uma edição nasce melhor que a anterior quando o plano dela já vem com a realidade da última embutida. Quando "abertura de portão" não é uma linha em branco, mas uma linha que carrega o que aconteceu de verdade nas vezes anteriores. Quando o previsto do ano que vem é construído em cima do realizado do ano que passou, e não em cima de um modelo que finge que nenhuma edição aconteceu antes.

Isso é o oposto de recomeçar do zero. É recomeçar do ponto onde você parou, com tudo que a última edição te ensinou já dentro do plano, trabalhando a seu favor antes mesmo de o evento começar.

Não é sobre lembrar melhor. É sobre parar de depender da memória. A memória vai embora com quem opera. O plano fica.

Onde isso vai dar

O aprendizado que atravessa edições resolve um problema que acontece entre eventos, no intervalo de um ano, quando você senta pra planejar de novo.

Mas tem um aprendizado mais difícil, e mais valioso, que precisa acontecer num prazo bem mais curto. Não de uma edição pra outra. De uma hora pra outra, com o evento ainda acontecendo, a operação ainda de pé, quando ainda dá tempo de mudar alguma coisa.

Fazer uma operação aprender entre uma edição e outra já é difícil. Fazer ela aprender enquanto o evento ainda está acontecendo é um desafio completamente diferente.

É esse o próximo problema que eu quero explorar.

Alex Ferreira
Alex Ferreira

Fundador, Smartify Solutions

Vinte anos desenvolvendo software. Apaixonado por sistemas que funcionam de verdade.

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Pulso: onde o previsto encontra o realizado

O lugar onde a operação deixa de evaporar. O que foi planejado e o que de fato aconteceu se encontram, a diferença vira aprendizado, e cada edição nasce melhor que a anterior.

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