Processos · IA

O problema não é a IA. É a estrutura.

Uma conversa de WhatsApp entre um cliente e um chatbot de agendamento que não entende o que foi perguntado

No artigo anterior, eu defendi que atendimento não é roteiro, é processo. Mas uma ideia dessas só faz sentido quando a gente consegue enxergar o ponto exato em que um roteiro deixa de funcionar.

Neste artigo eu não vou defender nenhuma tese. Vou só acompanhar uma conversa. Uma conversa comum, dessas que acontecem todo dia no WhatsApp de qualquer negócio que atende gente. E vou mostrar, balão por balão, o momento exato em que o atendimento automatizado para de ajudar e começa a atrapalhar.

Você provavelmente já viu essa conversa. Talvez do lado do cliente, irritado. Talvez do lado do dono, tentando entender por que o cliente desistiu.

A conversa

Imagina um estúdio de pilates que colocou um chatbot no WhatsApp pra agendar aulas experimentais. A dona configurou um fluxo bonito, com botões, mensagens de boas-vindas, tudo certinho. Um cliente novo chega:

E é aqui que a dona perde o cliente. Não no "não entendi". No "que ótimo", três dias depois, perguntando de novo uma coisa que o cliente já tinha respondido.

Onde exatamente isso quebrou

Repara que a conversa não quebrou porque o bot foi mal escrito. Ela quebrou em três pontos, e cada um é de uma natureza diferente.

Quebrou no terceiro balão, quando o cliente perguntou o preço. Ele não quer escolher unidade ainda. Ele quer saber quanto custa antes de decidir qualquer coisa. É a pergunta mais natural do mundo pra quem está considerando gastar dinheiro, e pro bot ela é ruído.

Quebrou de novo no oitavo, quando o cliente perguntou o endereço. Duas vezes ele abriu um parêntese. Duas vezes o parêntese foi tratado como erro de digitação.

E quebrou de vez três dias depois. Porque o agendamento tinha um dado capturado, unidade Centro, e outro, quarta-feira, e nada disso sobreviveu ao silêncio.

Na cabeça do cliente foi uma conversa só, coerente, sobre uma decisão só. Ele começou a agendar, parou pra perguntar o preço, ficou em dúvida sobre a localização, sumiu pra pensar, voltou. Pro bot foram seis conversas diferentes que ele não soube costurar.

O cliente mudou de assunto e voltou.

Essa frase parece trivial. Ela é o lugar exato onde quase todo atendimento automatizado quebra.

Aqui vem a parte que costuma ser mal explicada

É tentador olhar pra essa conversa e concluir "esse bot é burro, preciso de uma IA melhor". E aqui eu preciso ser honesto, porque quem trabalha com IA todo dia vai perceber na hora: uma IA moderna resolve boa parte disso.

Ela entende que a pergunta do preço é uma pergunta, não um erro. Responde o preço. Volta pro agendamento. Não fala "não entendi". Se você jogar essa conversa num modelo bom, ele conduz com elegância.

Só que ele conduz enquanto está olhando. E é aí que a distinção fica clara.

O modelo é excelente em responder. Ele não é responsável por nada. Ele não sabe que existe um agendamento aberto, com um dado já capturado e outros três faltando. Ele não garante que aquele agendamento continua existindo três dias depois, quando o cliente volta e a conversa já saiu de qualquer janela de contexto. Ele não sabe se o preço que ele acabou de dizer é o preço que a dona pratica hoje, ou o que estava numa mensagem antiga. Ele não deixa registro do que foi combinado, pra alguém conferir depois.

Uma IA melhor melhora a resposta. Ela não cria o processo.

E o que faltou naquela conversa não foi resposta. Foi processo.

O que a estrutura precisava ter

Repara no que aquela conversa exigia, e que a árvore não tinha.

Exigia que o agendamento continuasse existindo enquanto outra coisa era atendida. O cliente abriu um parêntese pra perguntar preço no meio do agendamento. Um atendimento decente atende o parêntese sem fechar o processo, exatamente como um atendente humano faria sem nem pensar.

Exigia que o que já foi dito não se perdesse. Unidade Centro, quarta-feira. Três dias de silêncio não apagam isso. Um atendente humano puxaria a ficha e diria "oi, você tinha ficado de fazer quarta no Centro, ainda serve?".

Exigia entender que uma pergunta fora de ordem não é um erro. Perguntar o preço antes de escolher a unidade não é o cliente usando errado. É o cliente sendo cliente. A estrutura é que precisa aguentar isso.

Uma árvore de decisão até pode guardar informação. Slots, variáveis de sessão, contexto, tudo isso existe. Mas ela continua organizada em torno de um caminho pré-definido, e o que ela guarda serve pra andar nesse caminho. Quando a conversa sai da rota e precisa voltar depois, a estrutura mostra o limite. Ela pode lembrar as respostas. O difícil é lembrar o que a conversa estava fazendo.

Uma árvore de decisão sabe qual é o próximo passo. Um processo sabe onde a conversa parou.

O mercado já sabia disso, e esqueceu

O curioso é que esse problema não é novo, e não é do WhatsApp.

Eu passei perto de vinte anos construindo ferramentas de workflow. Comecei no Datasul Webdesk, no início dos anos 2000, que virou o Fluig lá pra 2013. Passei quase duas décadas modelando processo de empresa: pedido de compra que espera aprovação, volta pro solicitante, é revisado, sobe de novo, trava numa exceção, é retomado por outra pessoa três dias depois.

Ninguém nunca modelou um pedido de compra como uma árvore de decisão linear. Seria absurdo. Todo mundo sabia que um pedido de compra não anda em linha reta, que ele para, espera, volta, e que o sistema precisa saber exatamente em que estado ele estava quando parou. Isso é comum desde antes de existir WhatsApp.

Aí o atendimento migrou pro WhatsApp, e o mercado esqueceu tudo isso.

Construímos chatbots com uma estrutura que a gente já sabia, há vinte anos, que não aguenta processo de verdade. Não porque alguém decidiu errado. Porque o chatbot nasceu do lado da conversa, não do lado do processo, e ninguém percebeu que agendar uma aula experimental é um processo com estado, exceção e retomada, exatamente igual a um pedido de compra. Só que com uma pessoa impaciente do outro lado.

Onde isso vai dar

No artigo anterior eu disse que atendimento é processo, não roteiro. Esta conversa mostra exatamente o porquê. O problema nunca foi responder à pergunta do preço. Uma IA responde a pergunta do preço.

O problema era que o agendamento precisava continuar existindo enquanto a pergunta era respondida. E precisava continuar existindo três dias depois.

A pergunta certa, então, deixa de ser "como responder melhor?" e passa a ser "como uma conversa sabe exatamente onde ela estava, pra conseguir continuar de lá?".

Foi essa pergunta que deu origem à Sofia. E a resposta que eu encontrei não é a que eu esperava quando comecei. É dela que eu quero falar no próximo artigo.

Alex Ferreira
Alex Ferreira

Fundador, Smartify Solutions

Vinte anos desenvolvendo software. Apaixonado por sistemas que funcionam de verdade.

Conheça a solução

Sofia: atendimento no WhatsApp desenhado como processo

Não é mais uma árvore de decisão com IA por cima. Sofia executa fluxos de verdade (com retorno, exceção, espera, escalonamento e encerramento) onde o seu cliente já está: no WhatsApp.

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